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Inteligência Artificial Está a Redefinir a Relação entre Energia, Tecnologia e Geopolítica
Inteligência Artificial Está a Redefinir a Relação entre Energia, Tecnologia e Geopolítica

Vladimir Pereira
Analista do Mercado Petrolífero & Líder de Opinião. Vladimir, faz análises técnicas e estratégicas sobre a dinâmica do mercado de petróleo e gás, com foco nas tendências globais, políticas energéticas e impacto económico.
A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser exclusivamente uma questão tecnológica para assumir uma dimensão estratégica nas agendas de governos, empresas e organizações internacionais. A rápida evolução dos modelos de IA está a criar uma nova interdependência entre capacidade tecnológica, infraestrutura energética, transformação industrial e poder geopolítico.
Durante a Semana de Alto Nível da 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, que decorre de 18 a 28 de Setembro, em Nova Iorque, o futuro da IA ganhou particular destaque, reflectindo preocupações relacionadas com governação, segurança, desenvolvimento e os impactos de uma tecnologia que evolui a uma velocidade superior à capacidade de adaptação das instituições.
À medida que a IA avança, os seus efeitos começam a ultrapassar o domínio digital e a alcançar sectores estratégicos da economia. Entre os impactos mais relevantes está o aumento da procura por electricidade, a transformação das operações industriais e o surgimento de novos desafios relacionados com a governança e a distribuição do poder tecnológico.
A Crescente Procura Energética da Inteligência Artificial
De um lado, a expansão dos modelos de IA está a acelerar a construção de data centers, aumentando significativamente a procura por electricidade. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global de electricidade dos data centers deverá aproximadamente duplicar, de 485 TWh em 2025 para cerca de 950 TWh em 2030, representando cerca de 3% da demanda global de eletricidade até essa data.
Parte desse crescimento deverá ser impulsionada pela expansão do consumo de electricidade dos data centres dedicados à Inteligência Artificial, cuja procura cresce a um ritmo superior ao do consumo de electricidade associado aos data centres destinados a aplicações tradicionais.
Esta tendência poderá criar novas oportunidades para diferentes fontes de energia. A IEA estima que as energias renováveis deverão responder por quase metade do crescimento da procura dos data centers até 2030, enquanto o gás natural continuará a desempenhar um papel relevante, sobretudo pela sua capacidade de fornecer geração flexível e complementar fontes intermitentes.
Por outro lado, este crescimento coloca desafios estruturais ao sistema energético global, uma vez que a crescente concentração de data centers pode pressionar as redes eléctricas locais, enquanto a expansão da capacidade de geração e transmissão exige investimentos e prazos que nem sempre acompanham a velocidade de crescimento da tecnologia. A IEA alerta que, sem respostas adequadas aos constrangimentos das redes, cerca de 20% dos projectos de data centers planeados poderão enfrentar atrasos.
IA está a Transformar a Operação dos Activos de Petróleo e Gás
No sector de Oil & Gas, essa transformação já começa a ser observada nas operações. Segundo executivos da indústria, as aplicações da IA já estão associadas a ganhos de produtividade, manutenção preditiva, optimização das operações de perfuração, redução de falhas operacionais e melhoria dos processos de tomada de decisão.
De acordo com um levantamento e cruzamento de dados realizado pela PetroAngola no início deste ano, cerca de 60% das empresas prestadoras de serviços ao sector de petróleo e gás consideraram, na altura, que a Inteligência Artificial poderia contribuir significativamente, no curto e médio prazo, para prolongar a vida útil dos equipamentos, enquanto 39% não previam impactos nesse domínio.
Em relação ao emprego, quase 80% das empresas analisadas estimaram que a IA não deveria resultar na substituição de trabalhadores nas suas organizações nos próximos cinco anos, uma percepção partilhada tanto por pequenas como por grandes empresas de exploração e produção de petróleo, bem como entre empresas de serviços em diferentes mercados internacionais.
Estes dados sugerem que, no curto e médio prazo, o impacto da IA no sector poderá estar menos relacionado com a substituição de trabalhadores e mais com a transformação da forma como os activos, as operações e as pessoas são utilizados.
A capacidade de combinar dados, tecnologia e conhecimento humano poderá tornar-se, assim, um factor cada vez mais relevante para aumentar a eficiência, prolongar a vida útil dos activos e melhorar a qualidade das decisões no sector energético.
Os Desafios da Governação e do Controlo da Inteligência Artificial
À medida que a Inteligência Artificial ganha capacidade e autonomia, uma das principais preocupações dos líderes mundiais passa a ser como garantir que o desenvolvimento da tecnologia permaneça sob controlo humano. Por ocasião da 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, António Guterres incluiu a IA entre os grandes desafios de poder que determinarão o futuro da cooperação internacional, defendendo mecanismos de governação capazes de acompanhar a velocidade da inovação.
A preocupação começa também a ser expressa pelos próprios líderes da indústria de tecnologia. No Conselho de Segurança da ONU, Sam Altman, CEO da OpenAI, defendeu padrões internacionais, mecanismos de reporte de incidentes e canais seguros de cooperação entre governos e empresas. Dario Amodei, da Anthropic, alertou igualmente para os riscos de uma utilização inadequadamente gerida da tecnologia. O debate revela uma questão central, quanto mais poderosos forem os sistemas de IA, maior será a necessidade de mecanismos independentes de avaliação, supervisão e responsabilização.
Outro desafio é a concentração do conhecimento e da capacidade tecnológica. O debate da ONU chama atenção para o facto de os sistemas mais avançados estarem concentrados num número relativamente reduzido de empresas e países, levantando questões sobre soberania tecnológica, acesso equitativo e assimetrias entre economias desenvolvidas e países em desenvolvimento. Para os líderes, portanto, o desafio não parece ser escolher entre acelerar ou travar a IA, mas criar condições para que a inovação avance com segurança, responsabilidade e benefícios mais amplamente distribuídos.
A forte demanda energética da IA e a sua aplicação nos sectores industriais mostram que a tecnologia já está a produzir efeitos concretos sobre a economia física. Mas a dimensão estratégica da IA vai ainda mais longe, já que os modelos avançados passam a depender de grandes volumes de energia, semicondutores, minerais críticos, infraestruturas digitais e cadeias globais de abastecimento, a capacidade de desenvolver e controlar essas tecnologias passa a constituir um factor de poder geopolítico.
IA Entra na Agenda Geopolítica das Grandes Potências
É neste ponto que a Inteligência Artificial deixa definitivamente de ser apenas uma questão tecnológica ou empresarial e adquire crescente importância geopolítica para as principais potências.
A recente visita de Estado do Presidente chinês, Xi Jinping, aos Estados Unidos, de 23 a 25 de Setembro, a convite do Presidente Donald Trump, ganha particular relevância. A Inteligência Artificial e os minerais críticos integram a agenda das conversações entre os líderes de duas das maiores potências económicas e tecnológicas do mundo.
Mais do que temas isolados, ambos estão no centro de uma disputa mais ampla pelo controlo das tecnologias, dos recursos e das cadeias de abastecimento que sustentam a economia do futuro. Os Estados Unidos e a China concentram uma parcela expressiva do desenvolvimento, investimento e infraestrutura global de IA, enquanto a disponibilidade e o acesso a minerais críticos se tornam igualmente estratégicos para a expansão das tecnologias digitais, energéticas e industriais.
Para além da inovação, a IA tornou-se uma questão de competitividade económica, segurança e soberania tecnológica. O diálogo entre Washington e Pequim poderá, assim, constituir um importante passo para elevar ao mais alto nível a discussão sobre mecanismos de cooperação e governação, capazes de reduzir riscos, estabelecer limites e criar condições para que o desenvolvimento da IA avance de forma responsável e sustentável.
Num cenário em que a tecnologia evolui mais rapidamente do que os mecanismos de regulação, a capacidade das principais potências para construir entendimentos poderá ser determinante para definir não apenas o futuro da Inteligência Artificial, mas também o equilíbrio económico e tecnológico das próximas décadas.